Com um coquetel que reuniu cerca de 150 pessoas, a AsBEA e o Museu da Casa Brasileira abriram na noite de 20/4 a exposição Outros Planos: Brasílias, que homenageia os 50 anos de fundação de Brasília e resgata os sete projetos finalistas do concurso realizado em 1957 para a escolha do Plano-Piloto da então nova capital do País.
Na abertura da mostra, que contou com a presença de representantes de escritórios que participaram do concurso e estudiosos do assunto, ficou patente que o evento não só faz imaginar como seria Brasília se o projeto escolhido fosse outro, como também reacende discussões sobre o processo de urbanização brasileiro e o papel do arquiteto.
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| Della Manna, curador da mostra: retormada de posição |
Para o curador da exposição, o arquiteto Eduardo Della Manna, os projetos em exposição no Museu da Casa Brasileira resumem o "espírito" daquela época, "um Brasil desenvolvimentista que precisava ter uma expressão simbólica forte, de um país que queria se modernizar e que necessitava passar isso para o mundo".
Retomada de espaço - Segundo Della Manna, para a AsBEA se impõe agora o desafio de fazer com essa exposição abra um período continuado de discussão, envolvendo entidade e associados, sobre o que são as cidades brasileiras, sejam elas planejadas ou não.
"Ao longo dos último anos bem ao contrário do período do concurso, os arquitetos se distanciaram um pouco das discussões sobre as cidades. Esse espaço acabou sendo ocupado por outros especialistas, que vão de antropólogos a psicólogos, passando por filósofos, teóricos da comunicação, ambientalistas de diversos matizes e jornalistas. Todo mundo agora fala sobre cidades, menos os arquitetos, que, antes, eram atores privilegiados nessa cena. A exposição é uma maneira de tentarmos reinserir a Asbea e os arquitetos nessa discussão", diz Della Manna.
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| Rezende, presidente da AsBEA: pé no acelerador |
O presidente da AsBEA, Ronaldo Rezende, vê no resgate dos projetos de Brasília um estímulo a mais para lutar por grandes realizações.
"Essa exposição me fez sentir reenergizado. Vendo o resultado desse concurso, que é a cidade implantada, funcionando, pulsante, como é Brasília, percebemos o quanto somos capazes de realizar grandes obras, grandes empreendimentos", afirma Rezende, ligando os bons fluidos da mostra ao empenho da AsBEA na implementação do Projeto de Exportação da Arquitetura Brasileira.`
Pé no acelerador - "Os trabalhos dessa exposição animam a AsBEA, na condução do projeto de exportação da arquitetura. Sentimos que o que falta atualmente aos nossos arquitetos é auto-estima. Olhando esse projetos, a grandiosidade que foi construir Brasília, temos que respirar fundo e dizer: sim, somos capazes de meter o pé no acelerador e conquistar o mundo. Outras Brasílias", enfatiza o presidente da AsBEA.
Responsável pela pesquisa e recuperação dos projetos que participaram do concurso em 1957, o arquiteto Jeferson Tavares, diz que a exposição permite a visualização de uma síntese das soluções apresentadas, além de explicar a parcialidade do júri em selecionar projetos com filiações modernistas.
"Essa seleção permite que nos aproximemos das decisões do júri, compreendendo, assim, que a eleição dos finalistas esteve diretamente atrelada aos preceitos da vanguarda urbanística da época, ligada ao Movimento Moderno, embora a contribuição dos projetos vá além desses preceitos. A mostra permite um olhar sobre a realidade urbana brasileira da primeira metade do século 20, cujas soluções - esquecidas ou ignoradas -ainda podem nos ensinar por meio de erros e acertos", comenta.
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| Projeto da MM Roberto, que ficou entre o terceiro e o quarto lugares |
Sobre o seu trabalho de ''''garimpagem'''', Jeferson destaca a dificuldade que teve para reunir os projetos, numa iniciativa que começou em 1998 como uma pesquisa de iniciação científica originada na USP de São Carlos.
"Foi muito difícil agrupá-los, pois no Brasil, infelizmente, não temos a cultura da memória. Terminado o concurso, cada um pegou seu material e levou embora. Não houve uma atitude de reuni-las num acervo histórico. Além do fato de alguns autores terem morrido, o que é um grande complicador, os que estavam vivos nem sempre tinham o projeto em mãos. Houve trabalhos perdidos em incêndio, enchente, alguns foram doados para arquivos públicos e também se perderam. Enfim, foi um trabalho de pesquisa intensa para poder recuperar esse material. Rodei praticamente por todo o Brasil", recorda Tavares.
No Brasil desde 1940, o arquiteto e urbanista Jorge Wilheim, 82 anos, nascido em Trieste, na Itália, foi um dos arquitetos finalistas do concurso para a escolha do Plano-Piloto da "nova capital", em 1957.
Questão de vontade - "Acho uma coisa espantosa termos de esperar 50 anos para que a totalidade dos projetos classificados e não classificados viesse a ser conhecida, exposta e transformada em livro. E isso graças a um trabalho de mestrando, no caso do arquiteto Jeferson, que teve a pachorra de buscar estes projetos, os quais, passasse mais algum tempo, sequer poderiam ser encontrados", ressalta.
Para Wilheim, que estava lá quando tudo aconteceu, o contentamento pelo agrupamento desses projetos, reside no fato de o concurso da nova capital ter sido um momento muito importante para os arquitetos e urbanistas e para o País como um todo.
"Foi a ocasião em que todos nos pusemos a pensar sobre o que seria essa cidade diferente, no centro, no coração do País. Daí me perguntar por que durante 50 anos da nova capital, ninguém pensou que além da cidade que ali existe e que todo mundo conhece, existissem idéias de valor que naquela ocasião circularam por esse País e que mereciam ser estudadas?"
Titular de uma série de cargos públicos ao longo dos últimos anos, Jorge Wilheim era secretário municipal de Planejamento à época em que o atual Plano Diretor Estratégico da cidade de São Paulo foi concebido.
Para ele, uma maior participação do arquiteto no processo de desenvolvimento urbanístico depende unicamente de vontade e disposição:
"A participação do arquiteto está aberta, sempre esteve. Ou você participa ou não. A possibilidade de participar depende da gente", conclui.
Lista dos finalistas
1º lugar - Lúcio Costa;; 2º lugar - Boruch Milmann, João Henrique Rocha e Ney Fontes Gonçalves; 3º lugar (empatados) - Marcelo Roberto e Maurício Roberto; Rino Levi, Roberto Cerqueira César, Luiz Roberto de Carvalho Franco e Paulo Fragoso; 5º colocado (empatados) - Carlos Cascaldi, João V. Artigas, Mário Wagner V. Cunha e Paulo de Camargo e Almeida; Henrique E. Mindlin e Giancarlo Palanti; Construtécnica S/A - Milton C. Ghiraldini
Debates
Outros planos: Brasílias. Como seriam as outras brasílias?
Nesta terça-feira, 27/4, às 19h30.
Participam os arquitetos Jorge Wilheim, Pedro Paulo de Melo Saraiva, Marcio Roberto e Jeferson Tavares. Moderador: Eduardo Della Manna.
Brasílias: Reflexão e Crítica
Dia 11/4, às 19h30.
Participam os arquitetos Jeferson Tavares, Sylvia Ficher, Milton Braga e Fernando Serapião. Moderador: Marcio Mazza.
Após o debate haverá o lançamento do livro "O Concurso de Brasília - Sete Projetos para uma capital", de Milton Braga, com apresentação e edição de Guilherme Wisnik. Ensaio fotográfico: Nelson Kon. Editora Cosac Naify.
TOME NOTA:
Exposição: "Outros Planos: Brasílias"
Visitação: até 16 de maio
Debates: 27 de abril e 11 de maio, às 19h30
Local: Museu da Casa Brasileira
Av. Faria Lima, 2705 - Jardim Paulistano Tel. 3032-3727
Ingresso: R$ 4,00 - Estudantes: R$ 2,00 - Gratuito domingos e feriados
Acesso a portadores de deficiência física.
Visitas orientadas: 3032-2564
agendamento@mcb.org.br
Site: www.mcb.org.br
Twitter.com/mcb_org
Estacionamento: de terça a sábado até 30 min. grátis, até 2 horas R$ 8,00, demais horas R$ 2,00. Domingo: preço único de R$ 12,00.